Escalando o Monte Rainier nos Estados Unidos

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Apesar de ter feito muitas trilhas, nunca havia explorado uma montanha ‘de verdade’. Com isso quero dizer; com neve permanente no topo, altitude, ar rarefeito, etc. Havia lido muito a respeito e estava curioso e, junto com dois amigos, planejamos escalar o Monte Rainier.

Escalando o Monte Rainier
Escalando o Monte Rainier

Essa montanha é um estrato-vulcão (um vulcão formado por várias camadas de lava solidificada após sucessivas erupções) de 14.400 pés (4.392m) de altitude na costa noroeste dos EUA. Essa seria a oportunidade perfeita para conhecer esse tipo de atividade, e mal sabia eu que ao final dessa viagem estaria apaixonado pelo montanhismo, prosseguindo para o Kilimanjaro na Tanzânia em 2012 e o Elbrus na Rússia em 2013.

Contatamos uma operadora de alpinismo na região e confirmamos a viagem para Maio: na primavera as temperaturas seriam mais amenas e a neve do inverno ainda estaria relativamente firme, minimizando o risco de avalanches. Mas tudo isso funciona somente na teoria: apesar de todo o nosso planejamento verificando a condição da neve nos anos anteriores e a previsão de tempo com imagens de satélite, montanhas são entidades de temperamento imprevisível, senhoras do seu próprio ambiente capazes de provocar mudanças climáticas violentas, como veremos adiante…

Voamos de Toronto para Seattle e de lá alugamos um carro para chegar à cidadezinha de Ashford, ficando em um pequeno hotel chamado “Whittaker’s Bunkhouse”.

Se você é ligado em alpinismo esse nome deve ter soado familiar: o local pertence à família de Lou Whittaker, que virou uma lenda do alpinismo ao se tornar o primeiro Americano a subir o Everest pelo lado norte da montanha em 1984, estabelecendo uma nova rota através do Tibet. Anteriormente, a montanha havia sido conquistada pelo Neozelandês Edmund Hillary e o Sherpa Nepalês Tenzing Norgay pela face sul, no Nepal. Whittaker também escalou picos no Alasca, Paquistão e Himalaias, alcançando o cume do monte Rainier mais de 250 vezes ao longo de sua carreira como guia. Sua operadora funciona até hoje em Ashford – daí o tal hotel!

Hotel Whittaker em Ashford
O hotel Whittaker em Ashford, WA

O primeiro dia na montanha foi bem puxado, entrando no parque nacional Rainier e caminhando montanha acima com as mochilas cargueiras, após a longa orientação e checagem de equipamento na véspera. Nossos guias eram liderados por uma guia-chefe e o restante dos clientes vinham de várias partes dos Estados Unidos – alguns com bastante experiência, outros nem tanto… Um trio de irmãos adolescentes veio para ter uma experiência única em família, mas um deles não só não havia se preparado, como estava de ressaca de uma balada na noite anterior… esse não aguentou e desistiu logo nas primeiras horas. Ah, nada como a ‘sabedoria da adolescência’!

radiofarol para escalar montanhas
Um radiofarol que fica preso por baixo das nossa roupas o tempo todo, inclusive ao dormir. Em caso de avalanche acione o botão para ser resgatado!

Como se preparar para a escalada no Monte Rainier

O treinamento: subir escadas. Muitas escadas, por várias horas, com uma mochila carregada. Isso porque morando em Toronto, não existe uma só montanha por perto para treinar. Por outro lado o que não falta são prédios, e isso tem de sobra! Nessa época eu trabalhava em um prédio de 30 andares equipado com escadas internas de incêndio, e esse foi o local de treinamento escolhido (afinal, ‘quem não tem cão’…).

Três vezes por semana, às vezes nos finais de semana, as vezes a noite – eu e mais dois malucos ficávamos horas subindo e descendo as escadas de incêndio com mochilas carregadas de equipamento… (mais de uma vez a nossa presença causou suspeita e a segurança do prédio foi chamada! Ops… )

De volta a montanha… Ao final do primeiro dia de subida alcançamos o acampamento Muir, que fica a pouco mais de 10.000 pés de altitude. Esse abrigo possui um “bunker” com beliches e uma tenda permanente com uma cozinha improvisada onde os guias guardam seus equipamentos, cordas, etc.

Abrigo Muir no Monte Rainier
Abrigo Muir, a primeira parada na montanha – cara inchada, gripado, cansado, mas feliz

No segundo dia pela manhã recebemos mais orientações: como avançar com segurança na neve inclinada da montanha, como travar e se recuperar de uma queda no gelo, etc. Andamos encordados uns aos outros dali em diante, rumo ao segundo ponto de acampamento em Ingraham Flats – nossa última parada antes do pico.

Camp Muir em Monte Rainer
Esq.: um montanhista solitário acampando em camp Muir // Dir.: avançando para Ingraham Flats – os dois pontos microscópicos no centro da foto são pessoas subindo, Cathedral Gap dominando o alto da foto

Ao nos aproximarmos de Ingraham Flats atravessamos uma crista rochosa chamada Cathedral Gap, e poucas horas depois vimos nosso próximo acampamento. Naquele ponto eu entendi porque os guias estavam superatentos e checavam nossas cordas de tempos em tempos – estávamos atravessado uma geleira com falhas na neve, ou “crevasses”. Essas fendas, que podem alcançar mais de dez metros de profundidade, se formam a medida que a neve acumulada se desloca com o passar do tempo, sendo empurrada montanha abaixo pelo próprio peso. Nesse processo se formam falhas, fendas e rachaduras pelo caminho, algumas escondidas embaixo de uma fina camada de neve recente. Entre nós e o acampamento haviam várias dessas fendas a serem evitadas, algumas visíveis, outras não.

Check de equipamento contra as crevasses
Guia checa cordas e equipamentos antes de prosseguirmos. Atrás dele, uma fenda com vários metros de profundidade. Os pontos amarelos ao fundo são a recompensa – nossas barracas!

Alcançamos o segundo acampamento em segurança, mas tínhamos apenas algumas horas para descansar… Normalmente o ‘ataque ao cume’ de uma montanha começa de madrugada, entre 2 e 4 da manhã: nessa hora o vento diminui e a neve está mais firme com o frio da noite, chega-se ao cume com o sol nascente e temos um dia inteiro para retornar caso algum problema aconteça no trajeto. Por isso fomos “tocados” para as barracas após jantar às 5 da tarde: os guias queriam nos ver bem alimentados e descansados para a subida final. Mas você já tentou ir dormir às 5 e meia da tarde? Pois é: ficamos descansando nos sacos de dormir, pensando na subida que nos aguardava em algumas horas, olhando para o nylon colorido das barracas, lidando com a ansiedade em silêncio, sem realmente dormir.
Escalando o Monte Rainier

Em seguida recebemos más noticias – apesar de não haver vento nem nada além de um absoluto céu azul no fim da tarde, nossa guia avisou que o tempo estava para ‘virar’… Ao cair da noite ela reuniu todos em um círculo na tenda principal e nos informou que nossas chances de alcançar o cume da montanha nas próximas horas eram ínfimas. Iríamos tentar na medida que fosse possível progredir com segurança, mas se a situação piorasse daríamos meia-volta e não haveria tempo para hesitação ou debates na encosta da montanha, no meio da noite. Todos concordamos!

Ingraham Flats com e sem tempestade
O tempo em Ingraham Flats, antes e depois – uma tempestade de neve as 3:30 da manhã próximo ao cume da montanha!

Ao acordar às 3 da manhã a gente escutava a neve batendo com intensidade no tecido das barracas e sabíamos o que vinha pela frente: vento, baixa visibilidade e muita neve. O prognóstico anterior havia baixado o nosso moral, e a realidade à nossa volta fez com que parte de mim pensasse em desistir. Afinal, se não vamos conseguir mesmo, porque todo esse esforço insano? Me forcei a sair da barraca, e nos equipamos à luz de lanternas para começar a subir lentamente, avançando na escuridão. A adrenalina rapidamente espantou o sono e cansaço. Por vezes, mais fendas a serem contornadas. A tempestade de neve nos atingiu com força 1 hora depois de deixarmos o acampamento, e a líder decretou a ordem final pelo radio: todos os guias devem diminuir a distância entre as cordas, fiquem juntos e mantenham contato, e iniciem a descida com cautela. Em pouco tempo chegamos de volta ao acampamento-base, logo antes de amanhecer. A sensação era uma mistura de desapontamento por não vermos o tão desejado cume após meses de preparo, alívio por estarmos todos bem, e respeito e gratidão aos nossos guias por lidarem com a situação com calma, responsabilidade e profissionalismo.

O restante do dia foi longo e anticlimático, descendo em silêncio pela neve até alcançarmos a saída do parque. Estávamos exaustos, felizes, distraídos em nossos próprios pensamentos sobre tudo o que a montanha nos ensinou naquelas horas. Não pisar no cume do monte Rainier: um fracasso? Talvez, mas tudo depende de como avaliamos o que o sucesso representa.

As definições de aventura, expedição e iniciativa compartilham um elemento importante: não existe sucesso garantido, apenas a promessa de que a jornada não será simples, mas tentamos assim mesmo.

*** Essa aventura aconteceu no início de 2011. ***

Leia mais:
– Monte Rainier / Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Mount_Rainier
Rochosas Canadenses: 6 dias na Trilha Rockwall no Kootenay National Park
Subindo o Monte Kilimanjaro (9 dias)

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7 Comentários
  1. […] Escalando o Monte Rainier nos Estados Unidos […]

  2. […] Monte Rainier, Estados Unidos […]

  3. […] de equipamentos, férias marcadas no trabalho, treinamento físico (mais escadas – lembram do Monte Rainier?), check-up médico, rotas e mapas estudados… tudo convergiria nos próximos dias e a […]

  4. […] Achei bem legal esse o post desses Brasileiros tentando chegar ao pico do monte Rainier : https://www.viajoteca.com/escalando-o-monte-rainier/ […]

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